Como fazer amigos no intercâmbio: o que ninguém conta sobre os primeiros dias

Intercambista brasileira com amigas durante high school nos Estados Unidos, mostrando como fazer amigos no intercâmbio

Nize tinha 17 anos quando desembarcou em Bluffton, uma cidade pequena no interior de Indiana, para um semestre letivo de high school. Ela esperava muitas coisas daquele intercâmbio. Não esperava chegar em casa chorando nos primeiros dias.

O motivo não era saudade nem arrependimento. Era uma constatação simples e assustadora: ninguém estava correndo atrás dela.

“No Brasil, na minha escola, quando chega algum intercambista todo mundo vai atrás querendo perguntar alguma coisa. Quando eu cheguei lá, ninguém me deu bola.”

Se você está prestes a embarcar, ou é pai de alguém que está, esse texto vale a leitura. Porque fazer amigos no intercâmbio é a maior ansiedade de quase todo adolescente que viaja, e é uma habilidade que se aprende, não um dom que algumas pessoas têm e outras não.

Por que os primeiros dias podem ser desafiadores

A expectativa de muito intercambista brasileiro é a de virar novidade. No Brasil, estudante estrangeiro costuma atrair atenção imediata. Em muitas escolas americanas, especialmente as grandes, não funciona assim.

Na escola da Nize havia apenas dois estrangeiros: ela e uma estudante da Mongólia, que, aliás, viraria uma das melhores amigas dela. Ainda assim, o interesse espontâneo dos colegas locais foi quase zero nas primeiras semanas.

Some a isso a barreira do idioma, que aparece mesmo para quem chega com bom inglês:

“Mesmo que você seja fluente, no início você ainda tem uma dificuldade com a língua. Aí fica meio difícil de se comunicar e você fica com vergonha.”

E há ainda um terceiro fator, que é o mais subestimado: a dinâmica de amizade é culturalmente diferente. O ritmo, os códigos, a forma de se aproximar. Nada disso é igual ao que o adolescente conhece do Brasil.

O resultado é uma primeira semana solitária que assusta. Mas que passa.

A regra que muda tudo: correr atrás

A virada, no caso da Nize, veio de uma percepção: se ninguém ia tomar a iniciativa, ela ia.

“Quando você chega lá, é você que tem que correr atrás. Essa é a dica que eu daria pra qualquer um: as pessoas não vão correr atrás de você.”

Na prática, isso significou coisas concretas e um pouco constrangedoras. Chegar em uma mesa cheia no refeitório e perguntar se podia sentar. Convidar gente para fazer coisas. Puxar assunto sem garantia de retorno.

“No início eu era cara de pau mesmo, chegava e falava: ‘Posso sentar na sua mesa?’ Dá uma vergonha, mas aí você vai e faz amizade.”

Esse é provavelmente o conselho mais útil sobre como fazer amigos no intercâmbio, e vale reforçar: a passividade é o que trava a experiência. Quem espera ser adotado por um grupo pode esperar muito tempo.

Esporte, o atalho mais eficiente nos EUA

Se existe um caminho curto para construir amizade no intercâmbio dos EUA, ele passa pelo esporte escolar.

Nize nunca tinha corrido na vida. Mesmo assim, entrou para o time de cross country, corrida de longa distância, logo no início, exatamente com o objetivo de conhecer gente. No inverno, quando a temporada acabou, foi para a natação.

Funcionou melhor do que qualquer estratégia dentro da sala de aula:

“O meu time de cross country era muito unido, sempre tinha jantar. Isso me fez me aproximar das pessoas, que me apresentaram pra outras pessoas, e aí fica tudo mais fácil.”

A lógica é simples. O time treina junto quase todo dia, viaja para competições, come junto, sofre junto. Em poucas semanas, isso cria um vínculo que meses de convivência em sala de aula não criam.

E vale registrar o efeito colateral: Nize terminou três provas de 5 km com canelite, tomando remédio para dor. Não virou atleta, mas descobriu uma capacidade que não sabia que tinha.

“Eu acho que o intercâmbio é uma oportunidade de você tentar novas coisas que você nunca fez antes e fazer alguns sacrifícios, mas sempre vale a pena.”

adolescentes fazendo esporte.

Comunidade fora da escola conta muito

O segundo grupo de melhores amigos da Nize não veio da escola nem do time. Veio da igreja que ela frequentava com a família anfitriã aos domingos.

Esse ponto costuma passar despercebido no planejamento. Em cidades pequenas americanas, a vida social não se concentra só na escola. Igreja, associações locais e eventos comunitários movimentam a agenda dos adolescentes tanto quanto o calendário escolar.

O intercambista que participa dessas atividades multiplica os círculos possíveis. E como todo mundo naquela cidade estuda na mesma escola, esses vínculos voltam para o corredor no dia seguinte.

Por que a sala de aula não basta

A escola da Nize era grande, com três horários diferentes de recreio. Isso soa como boa notícia, mais gente para conhecer, mas tem um efeito colateral.

Turmas diferentes a cada matéria significam nunca repetir o mesmo grupo por tempo suficiente para criar intimidade. Recreios divididos significam que seus colegas de aula podem nem estar no refeitório no mesmo horário que você.

O sistema também é outro. Ela cursou quatro matérias: inglês, história dos Estados Unidos, matemática e uma disciplina que juntava física e química, escolhidas a partir do que a escola brasileira exigia para validação.

“Ninguém usa caderno nem nada, é tudo no computador. Na aula de história o professor vai falando e você vai preenchendo o slide dele no seu computador.”

A aula que mais a marcou foi história americana. Não pelo conteúdo, mas porque foi lá que ela conheceu o melhor amigo do intercâmbio.

Ou seja: a sala de aula gera encontros, mas raramente sustenta a amizade sozinha. O que sustenta são as atividades extracurriculares depois que as aulas acabam.

A host family também exige esforço

Vale estender a lógica para dentro de casa. Amizade e convivência não brotam prontas,  inclusive com a família anfitriã.

Nize morou com um casal e uma bebê de 1 ano. Nas primeiras semanas houve atrito, principalmente por horários.

“No início, eu tinha alguns problemas com a minha host family, eu atrasava. Tive que me adaptar, fazer mudanças pra conseguir dar certo na família.”

O ajuste veio, e o vínculo também. O host dad tinha irmãs com famílias enormes, uma com 11 filhos, outra com 7, e os fins de semana na casa dos avós renderam uma leva inteira de primos da idade dela. E em casa, quase toda noite, depois do jantar, jogos de tabuleiro ou de cartas com a família.

“Vale muito a pena investir no início do intercâmbio em ficar próximo da família mesmo, porque é realmente pra vida toda. Eu converso com eles até hoje, com todos, até com os primos.”

Para entender melhor como funciona essa convivência, vale a leitura do guia sobre morar com uma host family no intercâmbio.

O dia em que ela virou rainha do baile

Menos de um mês depois de chegar, as amigas do time de cross country avisaram que iam votar nela para rainha do Homecoming, o baile tradicional do início do ano letivo americano.

Ela achou que não tinha a menor chance. Mal conhecia gente.

E ela ganhou.

“Você acabou de chegar num lugar completamente diferente, não conhece ninguém, e aí percebe que as pessoas gostam de você. Me aliviou muito, porque no início eu estava com medo de não fazer amigos.”

O detalhe importante para quem está lendo isso com ansiedade: entre chegar chorando em casa e ser eleita rainha do baile passaram-se poucas semanas. O esforço dos primeiros dias pode trazer resultados muito rápido.

homecoming

O que fica

O balanço da Nize sobre o intercâmbio inteiro cabe em uma frase que ela repete de formas diferentes:

“Tudo que deu certo no meu intercâmbio, eu percebi que fui eu que fiz.”

E ela faz questão de desmontar uma expectativa comum:

“Muita gente acha que o intercâmbio é umas férias, que é tudo uma mágica. Mas tudo é fruto de um esforço, um investimento que você faz na família, na escola, nos esportes, nas amizades.”

Esse tipo de amadurecimento tem base neurocientífica documentada, como explicamos no post sobre como o intercâmbio no Ensino Médio transforma o cérebro adolescente.

As amizades que ela construiu não acabaram no aeroporto. Meses depois de voltar, ela e as amigas americanas trocam vídeos todos os dias.

Cinco dicas práticas da Nize para fazer amigos no intercâmbio

Reunindo o que funcionou na prática:

  1. Entre para um time desde a primeira semana — mesmo em um esporte que você nunca praticou. É o caminho mais rápido para um grupo pronto
  2. Tome a iniciativa — pergunte se pode sentar, convide para sair, puxe assunto. Ninguém vai fazer isso por você
  3. Participe da vida da comunidade — igreja, eventos locais, atividades da família anfitriã. Em cidade pequena, é ali que a vida social acontece
  4. Não fique só entre intercambistas — a amizade com outros estrangeiros é valiosa e confortável, mas não pode virar bolha
  5. Invista na família anfitriã desde o começo — inclusive nos ajustes chatos, como horário. É a relação mais duradoura que você constrói

O próximo passo

Fazer amigos no intercâmbio é uma habilidade que se desenvolve, e boa preparação antes do embarque ajuda muito. A Central do Estudante realiza reuniões preparatórias com alunos e famílias antes da viagem, justamente para que ninguém chegue lá sem saber o que esperar.

Somos membros da Belta — Associação Brasileira das Agências de Intercâmbio e nossa equipe é formada por profissionais que viveram intercâmbio na própria pele. Para famílias ainda em fase de decisão, reunimos também as 8 dúvidas mais comuns dos pais sobre intercâmbio high school.

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